Quando o primeiro morador pede autorização para instalar um carregador de carro elétrico na vaga, o condomínio geralmente avalia aquele pedido isoladamente: contrata um eletricista, verifica se o circuito aguenta, aprova. E está tudo certo — para um. O problema é que ninguém está calculando a soma. Um carregador residencial comum de 7 kW puxa cerca de 32 A em 220 V, o equivalente a um chuveiro elétrico ligado por oito horas seguidas, e especialistas do Crea-SP e da Universidade de Mogi das Cruzes apontam que um único ponto de recarga pode consumir tanto quanto vários apartamentos funcionando no limite ao mesmo tempo. Multiplique isso por cinco ou seis vagas e o prédio passa a operar com uma carga que simplesmente não existia quando ele foi projetado. O dado que dimensiona a urgência: o Brasil já ultrapassou 25,4 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo levantamento da ABVE com a Tupi Mobilidade, ganhando um novo carregador a cada hora.
E há um agravante de horário. A recarga acontece majoritariamente à noite, quando o morador chega em casa — exatamente o momento em que o prédio inteiro está no pico: chuveiro ligado, ar-condicionado, forno, televisão. Não são cargas que se revezam, são cargas que se somam. Um edifício construído nos anos 1980 ou 1990 teve sua entrada de energia, prumadas e quadro geral dimensionados para um perfil de consumo que não previa nada parecido. A infraestrutura não avisa quando chega perto do limite: ela simplesmente opera sob esforço, silenciosamente, noite após noite.
É justamente aí que mora o risco mais traiçoeiro. Segundo o professor Joni Matos Incheglu, da UMC, além da sobrecarga do circuito e do quadro de distribuição, o aquecimento de cabos e conexões é “o modo de falha mais silencioso e mais perigoso”, porque degrada o isolamento ao longo de semanas antes de qualquer sinal visível. Some-se a isso o risco de curto-circuito e choque em instalações feitas sem os dispositivos de proteção exigidos por norma, e o quadro fica completo: nada parece errado até o dia em que está. Não é hipótese distante — a Justiça de Cuiabá determinou a remoção imediata de um carregador instalado irregularmente após laudo de engenharia apontar possibilidade de curto-circuito, superaquecimento e incêndio, autorizando inclusive o uso de força policial para o cumprimento da ordem.
Existe ainda um ponto cego que quase nunca entra na discussão da assembleia: o seguro. Boa parte das apólices condominiais não contempla incêndios que atinjam simultaneamente vários veículos e as estações de recarga. Pior: deixar de comunicar formalmente à seguradora a instalação dos carregadores pode ser interpretado como agravamento de risco e fundamentar a negativa de indenização. Ou seja, o condomínio pode fazer tudo tecnicamente correto na garagem e ainda assim descobrir, no pior momento possível, que não tem cobertura. A recomendação dos especialistas é simples e raramente seguida: pedir posicionamento por escrito da seguradora antes de liberar qualquer instalação.
O caminho para sair disso não é proibir — em São Paulo, aliás, a Lei 18.403/2026 assegura ao condômino o direito de instalar o carregador na vaga privativa. É antecipar. A orientação técnica do Crea-SP é medir o consumo real do prédio por pelo menos uma semana antes de autorizar novos pontos, e a ABNT NBR 17019 estabelece os parâmetros da instalação. Onde a rede não suporta, existem saídas: solicitar aumento de carga à distribuidora, adotar medidores individuais e, sobretudo, instalar um sistema de gestão inteligente de cargas, que monitora a demanda total do edifício em tempo real e distribui apenas a folga entre os carregadores, impedindo que o limite seja ultrapassado. Vale registrar o contraponto honesto: quando o sistema é projetado por profissional habilitado, com equipamentos certificados e proteções adequadas, o risco é controlado e comparável ao de outros equipamentos elétricos de alta potência. O perigo real não está no carro elétrico. Está em aprovar a quinta instalação sem que ninguém tenha somado as quatro anteriores.